Hannah Arendt Da violência
Hannah Arendt
Da violência
Capítulo I, p. 20-21
O progresso é, certamente, mercadoria mais séria e mais complexa em
oferta na feira de superstições de nossa época. A crença irracional do século
XIX no progresso ilimitado encontrou aceitação universal principalmente por
causa do impressionante desenvolvimento das ciências naturais as quais,
desde o início da idade moderna, tornaram-se realmente “ciências universais”
e, portanto poderiam aguardar a perspectiva interessante da infindável
exploração da imensidade do universo. Que a ciência, ainda que não mais
limitada pela finitude da terra e de sua natureza, seja objeto de infindável
progresso não está de maneira alguma assegurado; que a pesquisa estritamente
científica no campo das humanidades, a chamada Geisteswissenschaften que
lida com os produtos do espírito humano, deva por definição chegar a um final
é óbvio. A incessante e insensata exigência de pesquisas originais em certas
áreas, onde só a erudição é agora possível, conduziu ora à pura irrelevância, o
famoso conhecimento sempre mais vasto sobre temas cada vez mais
limitados, ou ao desenvolvimento de uma pseudo-erudição a qual na verdade
destrói o seu objeto50. É digno de nota o fato de que a rebelião dos jovens, na
medida em que não é motivada exclusivamente moral ou politicamente, têm
sido dirigidas principalmente contra a glorificação acadêmica da erudição e da
ciência, ambas ainda que por diferentes razões, estando gravemente
comprometidas a seus olhos. E é verdade não ser de maneira alguma
impossível havermos atingido em ambos os casos um ponto crucial, o
momento dos resultados destrutivos. Não só cessou o progresso da ciência de
coincidir com o progresso da humanidade (seja o que for que isso acarrete),
como poderá esse fato até mesmo trazer o fim dessa mesma humanidade,
assim como o maior progresso da erudição poderá muito bem terminar colo a
destruição de tudo aquilo que fez com que a erudição valesse à pena. O
progresso, em outras palavras, não mais serve como padrão por onde avaliar o
processo de transformação desastrosamente rápido que liberamos.
Já que o que nos interessa é basicamente a violência, devo fazer uma
advertência –quanto às tentações de um mal-entendido. Se encararmos a
História em termos de um processo cronológico contínuo, cujo progresso,
ademais é inevitável, a violência’ na forma de guerras e revoluções poderá
parecer constituir-se na única interrupção possível. Se isso fosse verdade, se
somente a prática da violência tornasse possível à interrupção dos processos
automáticos no que diz respeito às ações humanas, os pregadores da violência
teriam ganhado um ponto importante. (Teoricamente, tanto quanto sei, tal
coisa nunca se comprovou, mas parece-me incontestável que as atividades
estudantis dos últimos anos baseiam-se na realidade dessa convicção). É a
função, entretanto, de toda ação, distinta do simples comportamento,
interromper aquilo que de outra maneira teria prosseguido automaticamente e,
portanto de forma previsível.



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